"Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças."
— Deuteronômio 6, 4-5
Amigos, Iniciamos hoje a análise detalhada do Símbolo dos Apóstolos. A primeira frase que pronunciamos — "Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra" — não é apenas uma introdução protocolar. Ela é o alicerce metafísico e espiritual de toda a nossa religião.
Se esta primeira afirmação ruir, todo o resto (a divindade de Cristo, a Igreja, os Sacramentos) desmorona. Por isso, convido você a um estudo teológico robusto, guiado pela Sagrada Escritura, pelo Catecismo e pelos nossos grandes mestres, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.
1. "Creio em Deus": A Revelação do Ser
A nossa fé começa com uma afirmação radical de monoteísmo. Diferente do politeísmo pagão, que via divindade em cada força da natureza, a fé cristã confessa um Deus Único, Transcendente e Pessoal.
Mas quem é este Deus? Ele não é uma "energia cósmica" anônima. Ele tem um Nome e uma identidade. No livro do Êxodo, diante da sarça ardente, Moisés pergunta a Deus quem Ele é. A resposta divina muda a história da filosofia e da religião: "EU SOU AQUELE QUE SOU" (Ex 3, 14).
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) nos ensina que este nome misterioso (YHWH) revela a essência de Deus: Ele é a plenitude do Ser (CIC, n. 213). Enquanto nós e os anjos apenas temos a existência (uma existência recebida e dependente), Deus é a Existência.
"Ipsum Esse Subsistens"
(O Próprio Ser Subsistente) — São Tomás de Aquino
Deus não "existe" da mesma forma que uma árvore ou uma estrela existem; Ele é o ato puro de ser que sustenta todas as árvores e todas as galáxias. Por isso, Ele é imutável, eterno e a fonte de tudo o que há.
2. A Paternidade Divina: Duas Dimensões
Muitas religiões chamam suas divindades de "pai" no sentido genérico de criador ou progenitor. Na fé católica, porém, chamar Deus de Pai nos introduz em dois abismos de profundidade.
Antes mesmo de criar o mundo, Deus já é Pai eternamente. Jesus revelou que Deus é Pai num sentido inédito: como Aquele que gera eternamente o Verbo. "Ninguém conhece o Pai senão o Filho" (Mt 11, 27).
Aqui reside a beleza da nossa salvação: fomos feitos filhos no Filho. Santo Agostinho diz: "O Filho único de Deus, para fazer de nós filhos de Deus, fez-se filho do homem". Nossa filiação é adotiva, mas real.
3. O Todo-Poderoso e o Enigma do Mal
É curioso notar que, de todos os atributos divinos — Sábio, Bom, Justo, Belo —, o Credo cita explicitamente apenas um: a Onipotência. Professamos que Deus é o Pantokrator, o Todo-Poderoso.
A fé no poder de Deus é a base da nossa esperança. Se Deus não fosse Todo-Poderoso, Ele não poderia cumprir suas promessas, nem ressuscitar os mortos, nem perdoar pecados.
No entanto, surge aqui a maior objeção do ateísmo moderno: "Se Deus é Todo-Poderoso e Bom, por que existe o mal?". A Igreja não foge dessa pergunta. A resposta católica passa pelo mistério da liberdade humana e da sabedoria da providência.
"O Deus Todo-Poderoso [...], sendo sumamente bom, de modo algum permitiria que existisse qualquer mal em suas obras, se não fosse suficientemente poderoso e bom para, do próprio mal, tirar o bem."
— Santo Agostinho, Enchiridion
O poder de Deus não é arbitrário; é um poder que vence o mal transformando-o. A prova máxima disso é a Cruz: do maior mal moral já cometido (o assassinato do Filho de Deus), Deus extraiu o maior bem possível (a Redenção da humanidade).
4. Criador do Céu e da Terra
O primeiro ato deste Pai Todo-Poderoso é a criação. Diferente dos mitos antigos ou do panteísmo, a fé cristã ensina a Criação Ex Nihilo (a partir do nada). Deus não precisou de ajuda, de matéria pré-existente ou de tempo. Pela Sua Palavra e Vontade livre, Ele chamou o ser à existência.
Além disso, a criação não foi um ato único que acabou no passado. São Tomás de Aquino explica que a criação é contínua. Se Deus parasse de sustentar o mundo com sua vontade por um milésimo de segundo, tudo voltaria ao nada instantaneamente.
Conclusão: A Nossa Resposta
Crer neste Deus Uno, Pai e Todo-Poderoso tem consequências práticas imensas para a nossa vida. Significa viver em constante ação de graças e confiar na adversidade.
Sabemos que, mesmo no sofrimento, estamos nas mãos de um Pai que tem o poder de tirar o bem do mal. Como dizia a grande Santa Teresa de Ávila: "Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta".
No próximo estudo, voltaremos nossos olhos para o centro da história: o Segundo Artigo, sobre Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor.
Até lá!