"Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."
— Mateus 28, 19
Amigos, a paz! Antes de prosseguirmos no Credo, precisamos fazer uma pausa reverente diante do maior de todos os mistérios. Se perguntarmos a um judeu ou a um muçulmano quem é Deus, eles dirão: "Ele é o Único".
Nós, católicos, dizemos o mesmo, mas acrescentamos uma novidade explosiva trazida por Jesus: Deus é Único, mas não é solitário.
"Deus é uma comunhão eterna de Amor. Ele é Trindade."
Este é o mistério central da nossa fé. Todas as outras verdades (a Encarnação, os Sacramentos, a Igreja) derivam dele. Vamos tentar balbuciar algo sobre essa grandeza, guiados pelos nossos mestres.
1. A Matemática de Deus: Um e Três
A primeira coisa que precisamos afirmar é o monoteísmo. Não cremos em três deuses. Cremos em um só Deus. No entanto, a fé católica utiliza dois termos filosóficos gregos para explicar como esse Deus Único se relaciona internamente:
Responde à pergunta: "O que é?"
Há apenas uma substância divina. O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus. Eles têm o mesmo poder, a mesma eternidade, a mesma glória.
Responde à pergunta: "Quem é?"
Há três pessoas distintas. O Pai não é o Filho, e o Espírito não é o Pai. Eles são distintos, mas inseparáveis.
O Catecismo resume: "A Trindade é uma. Não confessamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas: a Trindade consubstancial" (CIC, n. 253).
2. Quem Revelou isso?
A razão humana, sozinha, jamais chegaria a essa conclusão. Olhando para a natureza, sabemos que Deus existe e é poderoso (como viu Aristóteles). Mas saber que Ele é Pai, Filho e Espírito Santo exigiu que Ele mesmo nos contasse.
Foi Jesus quem nos revelou a intimidade de Deus.
- No Batismo no Jordão, o céu se abriu: o Pai falou, o Filho estava na água e o Espírito desceu como pomba.
- Na despedida, Jesus mandou batizar "em nome" (singular) "do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (plural).
3. A Explicação de Santo Agostinho (O Amor)
Como entender três que são um? Santo Agostinho, em sua obra monumental De Trinitate, buscou uma imagem na própria alma humana, que foi feita à semelhança de Deus.
Ele diz que, onde há amor verdadeiro, tem que haver três realidades:
O Amante
Aquele que ama
O Pai
O Amor
O laço que une
O Espírito Santo
O Amado
Aquele que recebe
O Filho
Deus é tão perfeito que o Seu Amor não é apenas um sentimento, mas uma Pessoa: o Espírito Santo. Portanto, Deus não precisa criar o mundo para ter alguém para amar. Ele já é Amor em si mesmo, num movimento eterno de doação e recepção.
4. As Relações de Origem
São Tomás de AquinoSão Tomás de Aquino aprofunda dizendo que o que distingue as Pessoas são apenas as suas relações de origem:
- O Pai não vem de ninguém (é a Fonte).
- O Filho é gerado pelo Pai eternamente (é o Verbo).
- O Espírito Santo procede do Pai e do Filho (é o Dom).
Fora essas relações, tudo nEles é um. Eles têm uma só vontade, uma só inteligência e uma só ação. Quando Deus cria o mundo, é a Trindade inteira que cria. Quando Deus nos perdoa, é a Trindade inteira que age.
Conclusão: Morada da Trindade
Por que isso importa para a minha vida prática? Porque não fomos criados para assistir à Trindade de longe, mas para morar dentro dEla.
Jesus prometeu: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele a nossa morada" (Jo 14, 23).
Pelo Batismo, a sua alma se torna um pequeno céu onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam e conversam. Viver em graça é participar, desde já, dessa família divina.
Encerramos aqui nossa "Parte 0". Agora que temos os alicerces (Fé e Revelação), as ferramentas (Escritura, Tradição e Magistério) e mistério da Satíssima Trindade, estamos prontos para começar a construir a nossa catedral.