O Credo / Artigo 5

O Dia em que a Morte Morreu

"Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia"

Descida de Cristo ao inferno; Andrea de Bonaiuto (século XIV)
Descida de Cristo ao inferno; Andrea de Bonaiuto (século XIV)

"Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé... Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram."

— 1 Coríntios 15, 14.20

Amigos, O Sábado Santo é o dia do "grande silêncio". Deus morreu na carne e foi sepultado. Mas, enquanto o corpo de Jesus repousava no túmulo, a Sua alma realizava uma viagem misteriosa e triunfante. E, no Domingo, a história do universo mudou para sempre.

O Quinto Artigo do Credo declara a vitória total: "Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia". Vamos desvendar estes dois movimentos: a descida ao abismo e a subida à Glória.

1. "Desceu à Mansão dos Mortos": Onde Jesus esteve?

Esta frase muitas vezes confunde os católicos. Jesus foi para o "inferno" dos condenados (onde está o demônio)? Não.

A palavra usada no Credo original (latim inferos, hebraico Sheol, grego Hades) não se refere ao inferno da condenação eterna (Geena), mas à "morada dos mortos".

Antes da Redenção de Cristo, as portas do Céu estavam fechadas devido ao pecado de Adão. Todos os que morriam — fossem maus ou santos como Abraão, Moisés e Davi — iam para essa "mansão dos mortos", um estado de espera e escuridão, privados da visão de Deus.

A Missão no Sábado Santo

O Catecismo (CIC, n. 632-635) ensina que Jesus desceu a esse lugar não como prisioneiro, mas como Libertador. São Pedro nos diz que Ele "foi pregar aos espíritos que estavam na prisão" (1 Pd 3, 19).

Imagine a cena: Adão e Eva, profetas e reis, esperando há milênios. Cristo arromba as portas da morte e diz: "Eu sou a vossa Salvação". É a vitória da vida sobre a morte em seu próprio território.

2. "Ressuscitou ao Terceiro Dia": O Alicerce da Fé

Se a Cruz é o sacrifício, a Ressurreição é a validação. Sem a Ressurreição, Jesus seria apenas um profeta fracassado que morreu de forma trágica. Mas Ele venceu.

É crucial entender a diferença que o Catecismo (CIC, n. 646) aponta: Ressurreição não é Reanimação.

Lázaro (Reanimação)

Ele voltou à sua vida biológica antiga e, anos depois, teve que morrer novamente.

Jesus (Ressurreição)

Ele não voltou para a vida antiga. Ele passou para uma vida nova, eterna e definitiva. A morte não tem mais domínio sobre Ele (Rm 6, 9).

Como é o Corpo Ressuscitado?

Os Evangelhos mostram que o corpo de Jesus é real, mas glorioso.

  • É Real: Ele mostra as chagas a Tomé ("Põe aqui o teu dedo"), come peixe com os apóstolos. Não é um fantasma.
  • É Glorioso: Ele não está mais sujeito às leis da física. Entra no Cenáculo com as portas fechadas, aparece e desaparece. O corpo d'Ele está totalmente submisso ao Espírito Santo.

3. Um Evento Histórico e Transcendente

A Ressurreição é um mistério único porque acontece na história, mas ultrapassa a história.

O Lado Histórico: O sepulcro vazio é um fato verificável. As aparições às mulheres e aos Apóstolos (mais de 500 irmãos de uma vez, segundo Paulo em 1 Cor 15, 6) são testemunhos oculares. Os apóstolos, que estavam com medo, de repente ganham coragem para morrer por essa verdade. Ninguém morre por uma mentira que inventou.

O Lado Transcendente: Ninguém viu o momento da Ressurreição. Não houve testemunhas oculares do instante em que o corpo voltou à vida. Isso é um mistério entre o Pai e o Filho (CIC, n. 647).

4. O Sentido do "Terceiro Dia"

Por que ao terceiro dia? Além de cumprir as profecias (como o sinal de Jonas, que ficou três dias no ventre da baleia), isso confirma a realidade da morte.

Na mentalidade judaica antiga, acreditava-se que a alma rondava o corpo por três dias. Após o terceiro dia, quando a corrupção começava, a morte era considerada irreversível. Ao ressuscitar no terceiro dia, Jesus prova que venceu a morte definitiva.


Conclusão

Crer na Ressurreição muda tudo. Significa que o amor é mais forte que a morte. Significa que o nosso destino final não é um túmulo frio, mas a ressurreição da carne no fim dos tempos.

Nós somos, como dizia Santo Agostinho, um "Povo de Páscoa", e a nossa canção é o Aleluia.

Mas a missão de Jesus na terra tinha um fim. Tendo vencido a morte, Ele precisava retornar ao Pai para nos enviar o Espírito. No próximo estudo, olharemos para o alto: "Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso".

Até lá!