"Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé... Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram."
— 1 Coríntios 15, 14.20
Amigos, O Sábado Santo é o dia do "grande silêncio". Deus morreu na carne e foi sepultado. Mas, enquanto o corpo de Jesus repousava no túmulo, a Sua alma realizava uma viagem misteriosa e triunfante. E, no Domingo, a história do universo mudou para sempre.
O Quinto Artigo do Credo declara a vitória total: "Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia". Vamos desvendar estes dois movimentos: a descida ao abismo e a subida à Glória.
1. "Desceu à Mansão dos Mortos": Onde Jesus esteve?
Esta frase muitas vezes confunde os católicos. Jesus foi para o "inferno" dos condenados (onde está o demônio)? Não.
A palavra usada no Credo original (latim inferos, hebraico Sheol, grego Hades) não se refere ao inferno da condenação eterna (Geena), mas à "morada dos mortos".
Antes da Redenção de Cristo, as portas do Céu estavam fechadas devido ao pecado de Adão. Todos os que morriam — fossem maus ou santos como Abraão, Moisés e Davi — iam para essa "mansão dos mortos", um estado de espera e escuridão, privados da visão de Deus.
O Catecismo (CIC, n. 632-635) ensina que Jesus desceu a esse lugar não como prisioneiro, mas como Libertador. São Pedro nos diz que Ele "foi pregar aos espíritos que estavam na prisão" (1 Pd 3, 19).
Imagine a cena: Adão e Eva, profetas e reis, esperando há milênios. Cristo arromba as portas da morte e diz: "Eu sou a vossa Salvação". É a vitória da vida sobre a morte em seu próprio território.
2. "Ressuscitou ao Terceiro Dia": O Alicerce da Fé
Se a Cruz é o sacrifício, a Ressurreição é a validação. Sem a Ressurreição, Jesus seria apenas um profeta fracassado que morreu de forma trágica. Mas Ele venceu.
É crucial entender a diferença que o Catecismo (CIC, n. 646) aponta: Ressurreição não é Reanimação.
Ele voltou à sua vida biológica antiga e, anos depois, teve que morrer novamente.
Ele não voltou para a vida antiga. Ele passou para uma vida nova, eterna e definitiva. A morte não tem mais domínio sobre Ele (Rm 6, 9).
Como é o Corpo Ressuscitado?
Os Evangelhos mostram que o corpo de Jesus é real, mas glorioso.
- É Real: Ele mostra as chagas a Tomé ("Põe aqui o teu dedo"), come peixe com os apóstolos. Não é um fantasma.
- É Glorioso: Ele não está mais sujeito às leis da física. Entra no Cenáculo com as portas fechadas, aparece e desaparece. O corpo d'Ele está totalmente submisso ao Espírito Santo.
3. Um Evento Histórico e Transcendente
A Ressurreição é um mistério único porque acontece na história, mas ultrapassa a história.
O Lado Histórico: O sepulcro vazio é um fato verificável. As aparições às mulheres e aos Apóstolos (mais de 500 irmãos de uma vez, segundo Paulo em 1 Cor 15, 6) são testemunhos oculares. Os apóstolos, que estavam com medo, de repente ganham coragem para morrer por essa verdade. Ninguém morre por uma mentira que inventou.
O Lado Transcendente: Ninguém viu o momento da Ressurreição. Não houve testemunhas oculares do instante em que o corpo voltou à vida. Isso é um mistério entre o Pai e o Filho (CIC, n. 647).
4. O Sentido do "Terceiro Dia"
Por que ao terceiro dia? Além de cumprir as profecias (como o sinal de Jonas, que ficou três dias no ventre da baleia), isso confirma a realidade da morte.
Na mentalidade judaica antiga, acreditava-se que a alma rondava o corpo por três dias. Após o terceiro dia, quando a corrupção começava, a morte era considerada irreversível. Ao ressuscitar no terceiro dia, Jesus prova que venceu a morte definitiva.
Conclusão
Crer na Ressurreição muda tudo. Significa que o amor é mais forte que a morte. Significa que o nosso destino final não é um túmulo frio, mas a ressurreição da carne no fim dos tempos.
Nós somos, como dizia Santo Agostinho, um "Povo de Páscoa", e a nossa canção é o Aleluia.
Mas a missão de Jesus na terra tinha um fim. Tendo vencido a morte, Ele precisava retornar ao Pai para nos enviar o Espírito. No próximo estudo, olharemos para o alto: "Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso".
Até lá!