O Credo / Artigo 4

O Mistério da Redenção

"Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado"

Cristo Crucificado, Diego Velázquez
"Cristo crucificado" de Diego Velázquez, 1632

"Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados."

— Isaías 53, 5

Amigos, O Credo nos faz dar um salto abrupto. Passamos do nascimento virginal ("nasceu da Virgem Maria") diretamente para a Paixão ("padeceu sob Pôncio Pilatos"). A vida oculta de Nazaré e a vida pública não são citadas explicitamente, pois o foco do Credo é o Mistério Pascal: a Morte e a Ressurreição, que são o centro da nossa salvação.

O Quarto Artigo diz: "Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado".

Aqui, a teologia toca o chão da história e o sangue do sacrifício. Vamos entender os três atos deste drama divino, guiados pela Escritura e pelo Catecismo da Igreja Católica (CIC).

"Sob Pôncio Pilatos": A Fé Ancorada na História

Por que um governador romano obscuro é citado na nossa profissão de fé? Não seria melhor citar São Pedro ou São João?

A menção de Pôncio Pilatos não é uma homenagem, mas uma âncora histórica. O Cristianismo não é uma mitologia (como as histórias de Zeus ou Thor, que acontecem num "tempo sem tempo"). A nossa fé aconteceu em um lugar geográfico (Judeia) e em um tempo político específico (durante a ocupação romana).

Contra os Gnósticos

O Catecismo (CIC, n. 571-573) ensina que o mistério da Paixão é um evento real. A Igreja afirma vigorosamente: Jesus teve um corpo real, sofreu num tribunal real e morreu numa cruz real. Deus entrou na nossa história suja e violenta para redimi-la por dentro.

"Foi Crucificado": O Sacrifício Vicário

A morte de Jesus não foi um acidente de percurso, nem apenas o resultado trágico de inveja religiosa. Foi um desígnio eterno de amor.

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino explicam a teologia da "Satisfação Vicária". O pecado do homem (a desobediência) criou uma dívida infinita para com a justiça divina. Nós, finitos, não podíamos pagar. Jesus, sendo Deus e Homem, oferece Sua vida em nosso lugar (vicário significa "no lugar de").

Na Bíblia

São Paulo diz que "Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras" (1 Cor 15, 3).

No Catecismo

O CIC (n. 613-617) ensina que a morte de Cristo é o Sacrifício Pascal (Cordeiro que tira o pecado) e o Sacrifício da Nova Aliança.

Não foram os pregos que prenderam Jesus na cruz, mas o Amor por mim e por você. Ele se entregou livremente: "Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente" (Jo 10, 18).

"Morto": A Realidade da Separação

Algumas heresias antigas diziam que Deus não poderia morrer, então Jesus apenas "fingiu" ou "pareceu" morrer. A Igreja rejeita isso com vigor. Jesus experimentou a morte real.

A morte, na definição bíblica e filosófica, é a separação entre a alma e o corpo. Na Cruz, a alma humana de Jesus se separou do Seu corpo. Mas o Catecismo (CIC, n. 624-626) traz um ponto teológico crucial:

O Corpo no Sepulcro

Continuou sendo o corpo do Filho de Deus (por isso não sofreu corrupção).

A Alma na Mansão dos Mortos

Continuou sendo a alma do Filho de Deus.

* A divindade manteve unidos os elementos que a morte separou, preparando a Ressurreição.

"E Sepultado": O Grão de Trigo

O sepultamento de Jesus cumpre as Escrituras e encerra o mistério do Sábado Santo. Jesus foi colocado num túmulo novo, talhado na rocha. Este momento é o "repouso" de Deus. Assim como Deus descansou no sétimo dia após a Criação, Cristo "descansa" no sepulcro após a fadiga da Redenção.

O Significado para nós: Pelo Batismo, nós fomos "sepultados com Cristo" (Rm 6, 4). O sepultamento simboliza que o nosso "homem velho", a nossa vida de pecado, deve ficar definitivamente enterrada para que uma nova vida surja. Como o grão de trigo que cai na terra e morre para dar fruto (Jo 12, 24).


Conclusão

Ao confessarmos este artigo, olhamos para o Crucifixo não com pena de Jesus, mas com contrição pelos nossos pecados e gratidão imensa. A Cruz é o único lugar onde a Misericórdia e a Justiça se beijaram perfeitamente.

Mas o túmulo não é o fim da história. A pedra rolará. No próximo estudo, entraremos no mistério da vitória: "Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia".

Até lá!