"Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados."
— Isaías 53, 5
Amigos, O Credo nos faz dar um salto abrupto. Passamos do nascimento virginal ("nasceu da Virgem Maria") diretamente para a Paixão ("padeceu sob Pôncio Pilatos"). A vida oculta de Nazaré e a vida pública não são citadas explicitamente, pois o foco do Credo é o Mistério Pascal: a Morte e a Ressurreição, que são o centro da nossa salvação.
O Quarto Artigo diz: "Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado".
Aqui, a teologia toca o chão da história e o sangue do sacrifício. Vamos entender os três atos deste drama divino, guiados pela Escritura e pelo Catecismo da Igreja Católica (CIC).
"Sob Pôncio Pilatos": A Fé Ancorada na História
Por que um governador romano obscuro é citado na nossa profissão de fé? Não seria melhor citar São Pedro ou São João?
A menção de Pôncio Pilatos não é uma homenagem, mas uma âncora histórica. O Cristianismo não é uma mitologia (como as histórias de Zeus ou Thor, que acontecem num "tempo sem tempo"). A nossa fé aconteceu em um lugar geográfico (Judeia) e em um tempo político específico (durante a ocupação romana).
O Catecismo (CIC, n. 571-573) ensina que o mistério da Paixão é um evento real. A Igreja afirma vigorosamente: Jesus teve um corpo real, sofreu num tribunal real e morreu numa cruz real. Deus entrou na nossa história suja e violenta para redimi-la por dentro.
"Foi Crucificado": O Sacrifício Vicário
A morte de Jesus não foi um acidente de percurso, nem apenas o resultado trágico de inveja religiosa. Foi um desígnio eterno de amor.
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino explicam a teologia da "Satisfação Vicária". O pecado do homem (a desobediência) criou uma dívida infinita para com a justiça divina. Nós, finitos, não podíamos pagar. Jesus, sendo Deus e Homem, oferece Sua vida em nosso lugar (vicário significa "no lugar de").
São Paulo diz que "Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras" (1 Cor 15, 3).
O CIC (n. 613-617) ensina que a morte de Cristo é o Sacrifício Pascal (Cordeiro que tira o pecado) e o Sacrifício da Nova Aliança.
Não foram os pregos que prenderam Jesus na cruz, mas o Amor por mim e por você. Ele se entregou livremente: "Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente" (Jo 10, 18).
"Morto": A Realidade da Separação
Algumas heresias antigas diziam que Deus não poderia morrer, então Jesus apenas "fingiu" ou "pareceu" morrer. A Igreja rejeita isso com vigor. Jesus experimentou a morte real.
A morte, na definição bíblica e filosófica, é a separação entre a alma e o corpo. Na Cruz, a alma humana de Jesus se separou do Seu corpo. Mas o Catecismo (CIC, n. 624-626) traz um ponto teológico crucial:
Continuou sendo o corpo do Filho de Deus (por isso não sofreu corrupção).
Continuou sendo a alma do Filho de Deus.
* A divindade manteve unidos os elementos que a morte separou, preparando a Ressurreição.
"E Sepultado": O Grão de Trigo
O sepultamento de Jesus cumpre as Escrituras e encerra o mistério do Sábado Santo. Jesus foi colocado num túmulo novo, talhado na rocha. Este momento é o "repouso" de Deus. Assim como Deus descansou no sétimo dia após a Criação, Cristo "descansa" no sepulcro após a fadiga da Redenção.
O Significado para nós: Pelo Batismo, nós fomos "sepultados com Cristo" (Rm 6, 4). O sepultamento simboliza que o nosso "homem velho", a nossa vida de pecado, deve ficar definitivamente enterrada para que uma nova vida surja. Como o grão de trigo que cai na terra e morre para dar fruto (Jo 12, 24).
Conclusão
Ao confessarmos este artigo, olhamos para o Crucifixo não com pena de Jesus, mas com contrição pelos nossos pecados e gratidão imensa. A Cruz é o único lugar onde a Misericórdia e a Justiça se beijaram perfeitamente.
Mas o túmulo não é o fim da história. A pedra rolará. No próximo estudo, entraremos no mistério da vitória: "Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia".
Até lá!