"Mas, quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial."
— Gálatas 4, 4-5
Amigos, Chegamos ao ponto de virada da história humana e cósmica. Até agora, o Credo nos fez olhar para o alto: contemplamos Deus Pai Criador e a glória eterna do Filho. Mas agora, o Símbolo da Fé nos faz olhar para a terra, para um momento específico na história, quando o Infinito assumiu a nossa finitude.
O Terceiro Artigo afirma: "Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria".
Este mistério é chamado teologicamente de Encarnação. Não significa que Deus se "disfarçou" de homem, usando um corpo como uma roupa, mas que Ele assumiu verdadeiramente uma natureza humana, unindo-a à Sua Pessoa Divina para sempre. Vamos mergulhar neste abismo de amor, guiados pela Bíblia e pelo Catecismo da Igreja Católica.
Por que Deus se fez homem?
Por que o Todo-Poderoso quis descer e chorar como um bebê em Belém? O Catecismo da Igreja Católica (CIC, n. 456-460) lista quatro razões fundamentais para a Encarnação:
1. Para nos salvar
O pecado criou um abismo infinito entre a criatura e o Criador. Deus nos amou tanto que enviou Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.
2. Conhecer Seu amor
Ao fazer-se carne, Deus mostra que Seu amor é palpável, visível e próximo. "Nisto se manifestou o amor de Deus...".
3. Modelo de Santidade
Jesus é o "homem perfeito". Olhando para Jesus, aprendemos não apenas quem é Deus, mas quem o ser humano deve ser.
4. Participar da Divindade
"O Filho de Deus se fez homem para nos fazer Deus" (Santo Atanásio). Ele assume nossa miséria para nos comunicar a Sua divindade.
A Ação do Espírito Santo e a Nova Criação
O Credo especifica como esse milagre ocorreu: "Concebido pelo poder do Espírito Santo". Jesus não teve um pai biológico humano.
No momento da Anunciação, o Anjo Gabriel explica a Maria: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra" (Lc 1, 35).
O Espírito santificou o seio da Virgem Maria e fecundou-o por ação divina. Isso marca Jesus como o Novo Adão. Enquanto o primeiro Adão foi tirado da terra (barro), o Novo Adão veio do Céu. Essa origem divina garante que Jesus, embora verdadeiramente homem, seja isento do Pecado Original, inaugurando uma nova humanidade recriada na graça.
Nasceu da Virgem Maria: A Preparação e a Maternidade
No Credo, Maria não é citada apenas como um detalhe biológico, mas como a protagonista humana da Salvação. Para ser a Mãe do Salvador, ela precisou de uma preparação divina única.
1. A Imaculada Conceição ("Cheia de Graça")
O Catecismo (CIC, n. 508) ensina que, na descendência de Eva, Deus escolheu Maria. Para cumprir essa missão, ela foi redimida desde a sua concepção. Ela é o "fruto mais excelso da Redenção".
Isso significa que, pelo mérito antecipado de Cristo, Maria foi preservada imune de toda mancha do pecado original e permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo da vida. Ela é a "Cheia de Graça" (Lc 1, 28), o templo puro preparado por Deus para o Seu Filho.
Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (CIC, n. 509), pois aquele que ela concebeu como homem é, por natureza, o Filho eterno de Deus.
Maria permaneceu Virgem ao conceber, Virgem ao dar à luz e Virgem perpetuamente (CIC, n. 510). Sinal de que sua maternidade foi um dom total do Espírito.
O "Sim" em Nome de Toda a Humanidade
Este artigo do Credo só foi possível porque houve uma colaboração humana livre: o Fiat (o "Sim") de Maria.
"Loco totius humanae naturae"
(Em lugar de toda a natureza humana) — São Tomás de Aquino
O Catecismo (CIC, n. 511) traz esse ensinamento profundo: ao pronunciar o seu "faça-se em mim segundo a tua palavra", Maria não falou apenas por si mesma. Ela representou a humanidade inteira que aguardava o Salvador. Pela sua obediência, ela se tornou a Nova Eva, mãe dos vivos. Onde Eva trouxe a morte pela desobediência, Maria trouxe a Vida pela fé.
Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem
A consequência de tudo isso é a União Hipostática. Em Jesus Cristo, há duas naturezas (a divina e a humana) unidas em uma única Pessoa.
Ele não é "metade Deus, metade homem". Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Na Encarnação, a natureza humana foi assumida, não absorvida (CIC, n. 470). Jesus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana e amou com um coração humano.
Conclusão
Ao rezarmos este trecho do Credo, a Igreja nos convida a uma inclinação profunda, em reverência ao Deus que se fez pequeno e à Virgem que disse "Sim" por todos nós.
No próximo estudo, veremos o ápice da missão de Cristo: "Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado".
Até lá!