O Credo / Artigo 3

O Mistério da Encarnação

"Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria"

A Adoração dos Pastores, Gerard van Honthorst
A Adoração dos Pastores, Gerard van Honthorst, 1622.

"Mas, quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial."

— Gálatas 4, 4-5

Amigos, Chegamos ao ponto de virada da história humana e cósmica. Até agora, o Credo nos fez olhar para o alto: contemplamos Deus Pai Criador e a glória eterna do Filho. Mas agora, o Símbolo da Fé nos faz olhar para a terra, para um momento específico na história, quando o Infinito assumiu a nossa finitude.

O Terceiro Artigo afirma: "Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria".

Este mistério é chamado teologicamente de Encarnação. Não significa que Deus se "disfarçou" de homem, usando um corpo como uma roupa, mas que Ele assumiu verdadeiramente uma natureza humana, unindo-a à Sua Pessoa Divina para sempre. Vamos mergulhar neste abismo de amor, guiados pela Bíblia e pelo Catecismo da Igreja Católica.

Por que Deus se fez homem?

Por que o Todo-Poderoso quis descer e chorar como um bebê em Belém? O Catecismo da Igreja Católica (CIC, n. 456-460) lista quatro razões fundamentais para a Encarnação:

1. Para nos salvar

O pecado criou um abismo infinito entre a criatura e o Criador. Deus nos amou tanto que enviou Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

2. Conhecer Seu amor

Ao fazer-se carne, Deus mostra que Seu amor é palpável, visível e próximo. "Nisto se manifestou o amor de Deus...".

3. Modelo de Santidade

Jesus é o "homem perfeito". Olhando para Jesus, aprendemos não apenas quem é Deus, mas quem o ser humano deve ser.

4. Participar da Divindade

"O Filho de Deus se fez homem para nos fazer Deus" (Santo Atanásio). Ele assume nossa miséria para nos comunicar a Sua divindade.

A Ação do Espírito Santo e a Nova Criação

O Credo especifica como esse milagre ocorreu: "Concebido pelo poder do Espírito Santo". Jesus não teve um pai biológico humano.

No momento da Anunciação, o Anjo Gabriel explica a Maria: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra" (Lc 1, 35).

O Espírito santificou o seio da Virgem Maria e fecundou-o por ação divina. Isso marca Jesus como o Novo Adão. Enquanto o primeiro Adão foi tirado da terra (barro), o Novo Adão veio do Céu. Essa origem divina garante que Jesus, embora verdadeiramente homem, seja isento do Pecado Original, inaugurando uma nova humanidade recriada na graça.

Nasceu da Virgem Maria: A Preparação e a Maternidade

No Credo, Maria não é citada apenas como um detalhe biológico, mas como a protagonista humana da Salvação. Para ser a Mãe do Salvador, ela precisou de uma preparação divina única.

1. A Imaculada Conceição ("Cheia de Graça")

O Catecismo (CIC, n. 508) ensina que, na descendência de Eva, Deus escolheu Maria. Para cumprir essa missão, ela foi redimida desde a sua concepção. Ela é o "fruto mais excelso da Redenção".

Isso significa que, pelo mérito antecipado de Cristo, Maria foi preservada imune de toda mancha do pecado original e permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo da vida. Ela é a "Cheia de Graça" (Lc 1, 28), o templo puro preparado por Deus para o Seu Filho.

Mãe de Deus (Theotokos)

Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (CIC, n. 509), pois aquele que ela concebeu como homem é, por natureza, o Filho eterno de Deus.

Virgindade Perpétua

Maria permaneceu Virgem ao conceber, Virgem ao dar à luz e Virgem perpetuamente (CIC, n. 510). Sinal de que sua maternidade foi um dom total do Espírito.

O "Sim" em Nome de Toda a Humanidade

Este artigo do Credo só foi possível porque houve uma colaboração humana livre: o Fiat (o "Sim") de Maria.

"Loco totius humanae naturae"

(Em lugar de toda a natureza humana) — São Tomás de Aquino

O Catecismo (CIC, n. 511) traz esse ensinamento profundo: ao pronunciar o seu "faça-se em mim segundo a tua palavra", Maria não falou apenas por si mesma. Ela representou a humanidade inteira que aguardava o Salvador. Pela sua obediência, ela se tornou a Nova Eva, mãe dos vivos. Onde Eva trouxe a morte pela desobediência, Maria trouxe a Vida pela fé.

Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem

A consequência de tudo isso é a União Hipostática. Em Jesus Cristo, há duas naturezas (a divina e a humana) unidas em uma única Pessoa.

Ele não é "metade Deus, metade homem". Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Na Encarnação, a natureza humana foi assumida, não absorvida (CIC, n. 470). Jesus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana e amou com um coração humano.


Conclusão

Ao rezarmos este trecho do Credo, a Igreja nos convida a uma inclinação profunda, em reverência ao Deus que se fez pequeno e à Virgem que disse "Sim" por todos nós.

No próximo estudo, veremos o ápice da missão de Cristo: "Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado".

Até lá!